Olhar Global

Relógios que são muito mais que simples medidores do tempo

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O Double Tourbillon 30°, da marca suíça Greubel Forsey

O Olhar Global dedica neste artigo uma atenção especial para os chamados "objetos de desejo" que são inacessíveis a nós, simples e duros mortais, mas é aquela coisa, não é porque não podemos adquirí-los que vamos deixar de apreciá-los.

Para esta matéria, trazemos alguns relógios, mas que relógios! Está certo, está certo, sabemos que é muito dinheiro para um objeto, quando existem outros equivalentes, muitíssimos mais baratos. Mas é como um "Bentley" e um ‘fusquinha’, ambos são carros, ambos andam sobre rodas, mas, entre eles quanta diferença! Outro exemplo, uma caneta "Montblanc" e uma simples ‘BIC’, ambas cumprem sua função que é a de escrever, mas as semelhanças acabam aí. E por aí vai, porque na verdade estamos falando de algo que transcende a materialidade do objeto, estamos falando de técnicas, tecnologia, tradição, qualidade, design, arte, produção exclusiva e outros atributos intangíveis que se agregam e compõem o que já não é um produto, um objeto, uma marca, mas tudo isto harmoniosamente mesclado. Pois bem, vamos aos relógios!

Olhe para o pulso esquerdo e calcule a probabilidade de que nele esteja alguma das preciosidades cultuadas por quem realmente entende de relógios. Sim, é praticamente zero. Nem que se inclua na conta a minoria com poder de fogo para usar marcas de prestígio como as suíças Rolex ou Breitling, com preços médios em torno de 60.000 reais.

Para os amantes da arte da relojoaria, relógio bom é relógio complicado, tanto por dentro – no intrincado interior do mundo dos mecanismos – quanto por fora, em que história, material e minúcias decorativas se somam para separar homens ricos de seu dinheiro em menos tempo do que se demora para dizer tique-taque.

Na Christie’s em Genebra, em meados do ano, um Patek Philippe de altíssima estirpe foi arrematado pelo equivalente a 6,6 milhões de reais, o preço de um apartamento de cobertura na Avenida Vieira Souto, a mais cara do Rio de Janeiro. Os relógios desse patamar são peças de engenharia complexa, design altamente sofisticado e produção controlada. Provocam em mentes masculinas suscetíveis a seu apelo o mesmo efeito que diamantes bem grandes causam entre o público feminino – por algum motivo que a psicologia evolutiva provavelmente explica, as mulheres não costumam se emocionar com as máquinas de marcar horas, excetuando-se o efeito estético.

“Relógio é a única jóia que os homens se permitem colecionar. Dá para traçar a personalidade de cada um pelo modelo escolhido”, diz Christian Hallot, relações-públicas da joalheria H.Stern e ele mesmo incapaz de resistir ao encanto: é dono de dez exemplares raros. Colecionadores de relógios, aliás, primam mais pela qualidade do que pela quantidade – quando adquirem uma peça excepcional, perdem o gosto e se desfazem das que ficaram “simples”, o que limita uma boa coleção a dez, vinte relógios, em média. “Existe uma psicologia do colecionador”, ensina Hallot. “No começo, o foco é a quantidade. Com o tempo, ele elege um estilo e quer ter apenas o melhor da categoria.”

Por melhor, entenda-se algo raro e cheio de complicações. O nome é esse mesmo: tirando a efetiva contagem das horas, cada função indicada no mostrador é chamada de complicação, aí incluídas desde as singelas fases da lua até a diferença da hora marcada para a hora solar (que pode chegar, pasmem, a dezesseis minutos).

No quesito marcas, uma pesquisa conduzida neste ano pelo Luxury Institute, dos Estados Unidos, apontou as marcas suíças Vacheron Constantin, Patek Philippe e Piaget – esta última a mais jovenzinha, com 134 anos – como as de maior prestígio entre 513 milionários americanos. Patek e Piaget produzem, cada uma, não mais que 30.000 relógios por ano; a Vacheron, no máximo 20.000. Algumas de suas técnicas e ferramentas permanecem intocadas há décadas.

O processo de fabricação de um Patek tradicional exige 1.200 operações. Roldanas e pinos são aparados e lustrados e os relógios, montados, pintados e regulados um a um – tudo a mão, evidentemente. Antes de deixar a oficina, cada peça é observada durante 1.200 horas, para conferir a precisão dos movimentos. As ferramentas usadas são guardadas para consertos futuros. “É uma indústria baseada numa tecnologia que, por sua sofisticação, se movimenta a passos lentos”, diz Eric Loth, fundador da British Masters, empresa suíço-britânica que produz 10.000 relógios por ano, boa parte sob encomenda, das linhas Graham e Arnold & Son (preços até 500.000 reais) – ambos, nomes que homenageiam gênios da relojoaria inglesa do século XVIII.

No campo das complicações, as marcas mais cobiçadas nem sempre são as muito conhecidas. O interesse pelos modelos de funcionamento complexo só saiu do exclusivo mundo dos entendidos para o pouco menos rarefeito universo dos colecionadores de altíssimo poder aquisitivo nos últimos anos, quando o relógio de grife se difundiu e perdeu uma parte do glamour.

“Acho que a procura por modelos com muitas complicações aumentou porque os clientes querem ter uma ligação emocional com seus relógios”, especula o suíço Franck Muller, 50 anos, o atual “grão-mestre das complicações”. É dele este modelo abaixo, um emaranhado de 25 mecanismos especialmente complicados, cada um ancorado em um rubi sintético, a pedra que, por sua resistência, é usada para reduzir o atrito e o desgaste do eixo das roldanas que orquestram o movimento de um relógio. Algumas complicações são comuns, como ponteiros adicionais para indicar as horas em outras partes do globo. Mais raro é o calendário perpétuo, que “reconhece” anos bissextos graças a uma roldana acionada apenas de quatro em quatro anos.

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O ápice das complicações é o chamado tourbillon, feito para compensar o efeito da gravidade sobre a contagem das horas, que pode provocar uma diferença de quatro segundos diários. Patenteado por Abraham-Louis Breguet em 1801, o tourbillon (literalmente, redemoinho em francês) consta de um escapo (este, o mecanismo que regula o movimento do relógio) montado sobre uma base giratória; cada vez que gira 180 graus, anula-se o efeito gravitacional. Com menos de 1 grama de peso, um tourbillon costuma adicionar uns 80.000 reais ao preço final do relógio. O Double Tourbillon 30°, da marca suíça Greubel Forsey (preços a partir de 650.000 reais), tem, como o nome indica, dois tourbillons, um (inclinado a 30 graus) girando dentro do outro.

Pode ser encomendado em dois modelos, com a engrenagem à mostra ou tampada. O acabamento é num amarelo envelhecido, típico dos grandes mestres relojoeiros ingleses.

Os primeiros relógios mecânicos surgiram no século XII, transformando-se em máquinas fundadoras do pensamento científico. A astronomia e sua semovente filha, a navegação por instrumentos, nasceram e cresceram numa simbiose com os relógios.

A própria noção de passagem do tempo foi modificada por eles. Ao contrário da crença geral de que tudo de bom relativo à relojoaria vem da Suíça, são os ingleses que merecem esse crédito, graças às inovações em cronometria (medição dos intervalos do tempo) e navegação. “Eles desenvolveram boa parte das soluções usadas até hoje. A indústria suíça, atualmente hegemônica, só ganhou força no século XX”, diz Eric Loth.

Por mais que os herdeiros das grandes idéias se queixem, sempre com sussurros apropriadamente britânicos, a aura dos suíços é imbatível. No último leilão da Christie’s, o prestígio suíço subiu mais alguns pontos com os quase 7 milhões de reais pagos pelo raríssimo Patek Philippe de 1949, com caixa de aço inoxidável e dotado de uma “grande complicação” (calendário perpétuo combinado com indicador de fases da Lua). Arrematado, para lástima dos colecionadores particulares, por um museu da Suíça, o relógio tornou-se o segundo mais caro da história.

Não foi o único preço estratosférico da semana em Genebra. Na véspera, na Sotheby’s, outro Patek Philippe, de ouro, datado de 1932, alcançou em leilão o equivalente a 3,7 milhões de reais. A propósito: o relógio de pulso mais caro do mundo, vendido em leilão em 2002 pelo equivalente a 11,5 milhões de reais, também é um Patek Philippe – um modelo de platina, de 1939, com a complicação chamada hora mundial, com os 24 diferentes fusos, apontados em cidades com nomes gravados no mostrador.

Fonte: Silvia Rogar para a Veja

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