Informação de qualidade para qualidade de opinião!

Olhar Global






Alan Turing: A homossexualidade de um gênio entre Branca de Neve e uma maçã

Posted on 04.09.2008 by Xico Lopes

 

205a

Alan Turing (imagem: http://flickr.com/photos/guano/83114096/)

O nosso amigo Marco Ferrari mais uma vez nos brinda com a sua verve, e traz para o nosso conhecimento, uma história que tem se mantido meio que intencionalmente velada. É a vida de Alan Turing, uns dos pais da ciência da computação, um homem dotado de uma mente brilhante, mas que ainda assim não lhe foi o suficiente para superar o preconceito da sociedade inglesa de seu tempo em relação ao seu homossexualismo assumido.

 

marcoferrari1 Por Marco Ferrari (premionacionaldeliteratura@ig.com.br)

Regis Mc Keena, o mais famoso designer do Vale do Silício, deu para a posteridade o resgate do reconhecimento de Alan Turing como um gênio à altura de Einstein através do desenho gráfico de uma maçã mordida.

Resgatara assim do ostracismo a memória ocultada de um homem (por ser homossexual assumido) que fora iniciador da inteligência artificial, pai da cibernética e avô dos modernos PC.

Sua escolha sexual levou-o primeiro à castração, logo à morte e finalmente ao esquecimento. O logotipo da marca Apple Computers representa a maçã submergida no cianídrico que mordida uma vez por Turing, o matou.

Muitas poucas biografias humanas podem incluir nelas integrando sem contradições o primeiro desenvolvimento da cibernética, a história da Branca de Neve, a espionagem internacional, a homofobia das instituições estatais e uma maçã, como a que encerra a biografia de Alan Turing, menino prodígio, matemático, pioneiro da informática, criptógrafo, filósofo, inglês e pederasta assumido ‘avant la lettre’. 

205Enigma-b

Enigma – a máquina alemã (imagem: http://www.nsa.gov/gallery/photo/photo00005.jpg)

Pai da inteligência artificial ( a Prova de Turing – que servia para determinar se uma máquina pode ser considerada inteligente) teve papel fundamental na derrota do exército nazista decodificando a enorme capacidade de variantes do criptógrafo Enigma que, em coordenação de estratégias simultâneas na Europa ocupada havia custado milhões de vidas  entre os exércitos aliados e a população civil. A atuação do Enigma na guerra nos oceanos através dos submarinos alemães era espantosa. O Brasil conheceu esse poder de destruição.

Em 1943, sob sua liderança foi projetado o Colossus, computador inglês que foi utilizado na Segunda Guerra Mundial. Utilizava símbolos perfurados em fitas de papel que processava a uma velocidade de 25.000 caracteres por segundo. O Colossus tinha a missão de quebrar códigos alemães ultra-secretos produzidos por um tipo de máquina de codificação chamada Enigma. Os códigos mudavam frequentemente, obrigando a que o projeto do Colossus devesse tornar a decifração bastante rápida. Turing foi depois até os EUA para um projeto de transmissão de dados transatlânticos de forma segura.

205Colossus_thumb4

Colossus (imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Colossus.jpg)

Tornada ineficaz sua arma secreta, o Enigma passou a ser uma buzina que indicava os passos do exército alemão em alto falante. Só por esta razão, é inexplicável como seu nome não figura na galeria dos salvadores da civilização ocidental do século XX.

Cientista e gay

Segundo a crítica americana Avital Ronell estudiosa do “caso Turing” em seu livro “Pulsão de Prova”, a história da ciência se caracterizou por silenciar a vida dos cientistas em geral. “As experiências, paixões, impulsos e interesses que levaram a um indivíduo a fazer ciência, são mantidos em cauteloso silêncio nas narrativas tradicionais.

Pouco sabemos da infância de Einstein, os amores de Newton, da família de Stephen Hawking. Supõe-se que tudo isso não nos revelará nada sobre estes homens como cientistas menos ainda sobre seus trabalhos nos seus respectivos campos. A vida privada dos cientistas, em geral, não se leva bem com a pretendida seriedade da ciência.

Porém o atrito entre a “vida e a obra” chega ao escândalo quando falamos de alguém que transita veredas não convencionais e se dispõe obstinadamente em obedecer e despregar um desejo homossexual ainda não admitido. Nesse caso, a única opção é o silêncio: Turing foi apagado da história da ciência quando, contrariamente, um mínimo de critério de justiça histórica indica que seus aportes a ela deveriam ser tão celebrados como os de Einstein, Gödel ou os de Bill Gates. Até agora a ciência há renegado seu cientista gay.

Ou o dissimulara.

No caso de Turing porque sua homossexualidade não é um detalhe que possa ocultar-se, já que está na origem da sua curiosidade e no final de sua aventura científica. Concretamente, Turing começou suas primeiras explorações após a morte do seu primeiro amor, um colega do segundo grau chamado Christopher. Devastado por essa perda, o pequeno Turing se pergunta se a mente de Chris seguirá viva além do seu corpo, se seu intelecto seguirá funcionando sob formas não humanas. Segundo seus poucos biógrafos (entre eles a figura da sua mãe) essas dúvidas fantasmas, motorizadas pelo seu desejo, são o combustível inicial de toda sua investigação em torno da inteligência artificial.

Na sua obra “Rompendo códigos” o dramaturgo Hugh Whitemore, faz dizer o seguinte a um Turing já prostrado: “Foi uma obsessão que me acossou durante anos. Que são os processos mentais? Podem ter lugar em algo diferente a um cérebro vivo? De alguma maneira, uma maneira muito real, muitos dos problemas que tratei de resolver no meu trabalho retrocedem diretamente a Christopher?”.

Comprometido com o futuro, com os fantasmas, com o deciframento dos códigos secretos, também estava comprometido com sua sexualidade dissidente.

Numa época em que a homossexualidade era um crime na Inglaterra, (continuava vigente a lei que havia condenado a prisão ao famoso escritor Oscar Wilde) Turing tinha seus amantes, noivos, maridos e companheiros ocasionais de cama. Um deles, confirmando todas as previsões comuns sobre o calvário gay era ademais um ladrãozinho, e com ajuda de um cúmplice entrou na casa de Alan durante sua ausência para furtar coisas sem demasiado valor. Revoltado, estupefato, dir-se-ia falto de juízo, decide ir a delegacia a dar queixa. Os policiais muito amáveis lhe solicitam detalhes sobre o caso. O gênio de Turing fala como uma louca e conta tudo: “Sim, roubaram-me. Entraram com uma chave porque um dos rapazes era meu amante. Bom, sim, dormimos juntos duas ou três noites. Sim tive noivos, porém agora não tenho relação estável. Sim só durmo com machos. Muito obrigado. Até logo”.

Turing voltou contente para sua casa e dias depois se encontrou com o que nunca havia previsto: uma denúncia contra ele por “indecência grave e perversão sexual”, e o mandado de comparecimento ante o juiz por atos de sodomia.

O processo avançou sem problemas e em 1952 foi condenado a prisão.

A mesma sociedade que alentava o caráter experimental do seu aporte científico condenava o caráter experimental do seu estilo de vida. A justiça ofereceu-lhe um tratamento hormonal feminino para tentar diminuir sua sexualidade distorcida concedendo-lhe em troca o cumprimento de sua condenação em prisão domiciliar. Até então ninguém havia sido cobaia de tratamento com estrogênios. Ele aceitou.

Nenhum dos seus biógrafos atreve-se afirmar a exata razão de haver concordado nesse experimento. Ronell aventa a hipótese de voltar a pôr o corpo ao futuro. Seja como for começou a se tratar com os duvidosos hormônios.

Resultado: Transtornos do sonho, ansiedade generalizada, incapacidade de concentração, tontura, aumento de peso. Como efeito colateral lhe cresceram um par de peitos arredondados. Ficou impotente. Sofreu também outros efeitos residuais menos ligados a sua estrutura celular: o escárnio público.

Perdeu seu trabalho como decodificador, (durante a Guerra Fria os homossexuais eram considerados propensos à traição) seu próprio irmão veio de público a declarar que sentia vergonha dele etc, etc. Um ano depois, aproximadamente, Turing não agüentou mais e decidiu acabar com sua vida.

Lembrando-se do seu conto de fadas favorito, Branca de Neve, era fascinado pela versão de Walt Disney de 1938, Alan Turing foi comprar maçãs. Voltou para casa, escolheu a mais vermelha, submergiu-la em cianeto e lhe deu um mordisco. Isto foi a 7 de julho de 1954, quando iria completar 42 anos poucos dias mais a frente.

Passados cinqüenta anos da sua morte poucos e discretos reconhecimentos aproximam esporadicamente sua memória. A obra teatral de Whitemore, a biografia de sua mãe e o logotipo da Apple (o mais notável e silencioso) são as principais homenagens ao pai intelectual do nosso presente artificial.

Marco Ferrari

Especial para o Olhar Global

Para saber mais:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alan_Turing

http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1quina_de_Turing

 

.

Related Posts with Thumbnails

Leave a Reply

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.


Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes


↑ Top
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline

Olhar Global is Digg proof thanks to caching by WP Super Cache