A China que os Jogos Olímpicos não nos mostraram
Esta matéria, publicada inicialmente na Revista Galileu, nos apresenta um relato da verdadeira face do país, feito por um jornalista brasileiro que lá está desde 2004. A imagem da China que desde o dia 08 de agosto tem chegado massivamente aos meios de comunicação com os Jogos Olímpicos, e da qual muitos estão travando conhecimento provavelmente pela primeira vez, é uma China que de fato não existe, é "fake".
Mas leiam esta reportagem, e vocês tomarão conhecimento de uma realidade muito mais sombria, muito mais cinzenta, tal qual a poluição causada pela exploração desenfreada e sem critérios do ambiente, promovida pelo governo chinês.
Existe a China que está sendo exibida nos jogos olímpicos, o motor do mundo onde vive em harmonia 1,3 bilhão de prósperos socialistas. E existe outra, esta, sempre presente mas nunca apresentada: uma ditadura que explora, polui e censura em nome do progresso.
Há um mês e meio da simbólica data de 08/08/08, abertura das Olimpíadas de Pequim, a ONG Human Rights Watch (HRW) lançou um guia para jornalistas estrangeiros. As recomendações vão do básico – registre-se na embaixada de seu país e carregue sempre seu passaporte, por exemplo – ao sombrio – "nunca, jamais, em nenhuma hipótese, revide fisicamente a qualquer ação da polícia ou mesmo de grupos à paisana". Bem-vindo aos Jogos Olímpicos ao típico estilo chinês.
A China passou de nação pobre refém de um incompetente planejamento comunista a um capitalismo selvagem e emergente com um estado ainda gigante – o tal "socialismo de características chinesas" -, mas os ventos que renovaram a economia não sopraram sobre a política. No comando da impressionante máquina de crescimento chinesa está um regime autoritário, incapaz de lidar com críticas ou investigações jornalísticas, especialmente se elas vêm do exterior (até porque a mídia chinesa é estatal).
Estamos falando da maior ditadura do planeta, exercida com mão de ferro pelo Partido Comunista da China (PCC) que esmaga sem dó nem piedade toda a crítica que possa, de alguma forma, desestabilizá-lo – e às vezes nem isso.
O sistema eleitoral só existe no nível de pequenas vilas, mas com candidatos indicados pelo partido. A falta de um sistema judicial independente, cujos quadros são compostos por gente nem sempre formada em direito e umbilicalmente ligada ao partido, favorece os abusos de poder.
Essa falta de justiça independente é um problema grave num país que usa a torto e a direito a pena de morte como "exemplo para a sociedade". O governo não divulga dados sobre a pena capital e há indícios de que esses números estejam caindo (no ano passado, o governo determinou que todas as penas de morte decretadas em cortes intermediárias fossem revistas na Suprema Corte). Mas em recente relatório da Anistia Internacional, a China foi apontada como o país que mais executou presos em 2007. Exatas 470 pessoas. Há quem ache que o número seja muito maior, algo como 10 mil pessoas por ano. Qualquer que seja a estatística, nada se sabe sobre quem são esses mortos e o que fizeram para merecer tal destino. Na reta final para as Olimpíadas, a prisão de críticos do governo foi sistemática, baseada em acusações vagas ("subversão do poder do Estado", "revelação de segredos de Estado para o exterior") e por meio de processos em que os réus não possuem direito nem de conversar com seus advogados.
ONGs de defesa dos direitos humanos estimam que entre 100 e 150 jornalistas e blogueiros estejam presos. A Fundação Dui Hua, comandada pelo advogado John Kamm, é um grupo internacional que, há mais de 20 anos, trabalha para libertar presos políticos. "Calculamos que eles sejam mais de 30 mil. Há gente encarcerada desde 1989, como os manifestantes dos protestos que culminaram no massacre da Praça da Paz Celestial", diz Kamm.
Não há jornalista estrangeiro na China que não conheça a história de Hu Jia, que em 2007 publicou na internet o manifesto "A China Real e as Olimpíadas", criticando a falta de compromisso do país em melhorar a questão dos direitos humanos, uma promessa feita em 2001, quando Pequim ganhou o direito de sediar os jogos. Hu foi preso em janeiro deste ano e, em abril, sentenciado a três anos e meio de prisão por "incitar a subversão ao poder estatal". Sua mulher, Zeng Jinyan, e o bebê do casal, Qianci, cumprem prisão domiciliar. Dessa onda repressora não escapa nem mesmo quem trabalha em áreas menos delicadas politicamente.
Quando o tema é Aids, por exemplo, há um claro descompasso entre setores do governo: o Ministério da Saúde possui projetos de conscientização de grupos de risco, como prostitutas e usuários de drogas injetáveis. Mas para o Ministério da Segurança Pública, profissionais do sexo e viciados são criminosos que devem ir para a cadeia. Denúncias de venda ilegal de sangue, prática comum em áreas rurais, são sufocadas por autoridades locais. O resultado é que o estigma para soropositivos é enorme, e a desinformação dá o tom até mesmo nos grandes centros urbanos.
Aliás, esse descompasso entre o que manda o governo central e o que fazem os governos de províncias e cidades distantes de Pequim está na raiz da imensa maioria dos problemas de direitos humanos. Ainda que o grupo do presidente, Hu Jintao, e do primeiro-ministro, Wen Jiabao, pregue o mantra da "sociedade harmoniosa" – conceito confucionista que remete à redução dos desequilíbrios sociais e substituiu a antiga "luta de classes" -, as autoridades locais fazem o que querem.
Impera o "vale-tudo" em nome do desenvolvimento econômico, já que é esse desempenho que conta na hora de promover ou rebaixar alguém na hierarquia do partido. Qual o problema, por exemplo, de instalar uma termelétrica a carvão superpoluidora numa região de ecossistema riquíssimo se a fábrica vai gerar centenas de empregos, receitas em impostos e, de quebra, uma promoção no PCC? Dane-se o meio ambiente.
A China tem 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo, segundo o Banco Mundial. E pelo menos 400 mil pessoas morrem prematuramente, todos os anos, de doenças causadas pela poluição. O governo admite que ela causa um prejuízo anual de mais de US$ 200 bilhões. Mas, para os poderosos, o combate à pobreza é tão ou mais nobre que a preservação do ambiente, provavelmente esquecendo que nada adianta o enriquecimento num país devastado.
Os dados divulgados pelo Programa Nacional de Mudanças Climáticas do governo da China em 2007 mostram dados assustadores. A temperatura média anual no país subiu entre 0,5 °C e 0,8 °C nos últimos 100 anos. Os invernos entre 1986 e 2005, justamente quando a China deu início ao forte processo de industrialização, foram os mais quentes da história do país. Projeções mostram que a temperatura média vai aumentar entre 1,3° e 2,1° até 2020.
O impacto disso no derretimento das geleiras do platô tibetano, onde nascem os rios mais importantes da China, como Yang-tse-kiang e Rio Amarelo, pode levar à falta de água potável. Além disso, são cada vez mais freqüentes eventos climáticos extremos, como secas no nordeste e noroeste e inundações na região sul e central.
Crescimento e prosperidade são dois conceitos que, na Bíblia chinesa, compensam até mesmo ilegalidades, apesar do ar de austeridade e moralidade com que o governo de Pequim se vende ao mundo.
Veja-se a questão da pirataria, por exemplo. De quando em quando, o Conselho de Estado chinês convoca a imprensa para mostrar o quanto o governo apreendeu de mercadorias piratas ou quantas lojas de DVDs falsos foram fechadas em diferentes cidades do país. Bobagem. Um dos lugares mais visitados por turistas em Pequim é um mercado de falsificações conhecido como Xiu Shui, onde é possível comprar uma bolsa Louis Vuitton por US$ 10 sem a menor fiscalização ou vergonha. Lojas de DVDs vendem os blockbusters de Hollywood por US$ 2, inclusive filmes censurados nos cinemas chineses pelo próprio governo. A razão? Acabar com as falsificações significa botar milhões na fila do seguro-desemprego. E frear o crescimento.
Essa mesma busca pelo crescimento, segundo especialistas, está por trás dos abusos trabalhistas que se espalham pela imensa maioria das empresas chinesas. Os sindicatos são instrumentos de controle do PCC, e a maioria das pessoas trabalha mais de oito horas, é mal remunerada, não tem direito a férias e não pode nem pensar em fazer greve – ainda que a renda geral do país cresça há 10 anos seguidos. A máquina exportadora "Made in China", segundo organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores, é movida por operários que vêm do interior, possuem pouca cultura e não se importam em trabalhar várias horas por dia ganhando U$ 30 (R$ 48) por mês. Os abusos são enormes e incluem até mesmo a utilização de mão-de-obra infantil e escrava.
No caso das construções olímpicas, inclusive, a própria Human Rights Watch tem casos documentados de operários que foram contratados no interior do país e simplesmente não foram pagos. Esses trabalhadores do campo, estimados em cerca de 250 milhões de pessoas (um Brasil e uma Argentina), vieram especialmente das províncias do centro-oeste e formam o grosso da mão-de-obra de indústrias e canteiros de obras da construção civil nos grandes centros da costa leste.
Leis ambientais e direitos trabalhistas são vistos como obstáculos para o progresso
Como o sistema educacional, de saúde e previdenciário da China é montado sobre os registros de local de nascimento das pessoas – os nascidos em Pequim usufruem de serviços baratos ou gratuitos somente na cidade -, os trabalhadores migrantes ficam à margem dos benefícios sociais, tendo de pagar somas enormes por um amparo social que deveria ser gratuito ou, ao menos, barato. Um sistema nada comunista.
A diferença no crescimento entre a costa leste e o interior está criando algo que não existia na China na época do comunismo: diferença de renda entre pobres e ricos e entre o campo e a cidade. Segundo estudo da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o Ministério do Planejamento chinês, a renda dos residentes nas grandes cidades chegou a 3,2 vezes a renda do campo em 2005, último dado disponível. A renda dos 10% mais ricos nas grandes cidades chinesas é 9,2 vezes maior que a renda dos 10% mais pobres. No campo, a renda dos 10% mais ricos é 7,3 vezes maior que a renda dos mais pobres. Ambos os índices eram menores em 2004.
Talvez a prosperidade urbana explique por que os maiores protestos contra o governo atualmente aconteçam no campo, de longe o lugar menos beneficiado pelo desenvolvimento econômico (uma ironia no país da revolução comunista agrária). No início de julho, cerca de 10 mil moradores do condado de Wengan, na pobre província sulista de Guizhou, passaram dois dias quebrando e botando fogo na sede do governo local, em delegacias de polícia e até em carros públicos. A população protestava contra as autoridades, consideradas corruptas, incompetentes e criminosas, por acobertarem o estupro seguido de assassinato de uma estudante de 15 anos, supostamente cometido pelo filho do vice-chefe do condado.
Apesar da propaganda oficial que descreve um convívio pacífico com a maioria han (92% da população), as minorias reclamam de discriminação. No caso dos uígures (minoria muçulmana concentrada na fronteira com o Cazaquistão), a desculpa para a opressão é o "combate ao terrorismo", onde o governo de Pequim usa uma suposta presença de militantes radicais islâmicos no lugar para cercear todas as liberdades da etnia.
Repressão às religiões
E há a falta de liberdade religiosa, fenômeno que esteve na origem dos protestos tibetanos em março deste ano e que culminaram, com o gigantesco quebra-quebra em Lhasa, capital do Tibete. No episódio, morreram cerca de 100 pessoas e mais de 1.000 estão presas até hoje, inclusive os monges budistas, proibidos de sair de seus templos. Foram eles que, em passeatas pacíficas, iniciaram os protestos de março ao pedir mais liberdade de religião para o platô tibetano.
Apesar dos anos de ateísmo comunista e da firme convicção de que, seguindo o pensamento de Marx, "a religião é o ópio do povo", o governo de Pequim promoveu uma moderada abertura para as religiões tradicionais nos anos que se seguiram às reformas econômicas.
Mas essa abertura é feita controladamente, e todas as lideranças religiosas no país só funcionam com as bênçãos do grande deus chinês, o Departamento de Assuntos Religiosos do PCC. Cultos e missas não podem ser celebrados fora de igrejas e templos, diz o partido.
Não há como ignorar o apoio dado a regimes repressores ou injustos em troca de vantagens econômicas. No caso da China, trata-se da busca por recursos naturais num país que carece deles para sustentar seu crescimento econômico. Curiosamente, ainda que Pequim tenha a ambição de ser uma potência influente no cenário globalizado, o fato é que são os interesses econômicos da economia emergente que ditam as regras da diplomacia, o que significa o apoio a países de regimes execráveis como Myanmar, Nepal, Sudão, Zimbábue e Coréia do Norte – este último praticamente bancado pela China, que não quer ver, em seu quintal, um regime coreano unificado e capitalista sob a batuta de Seul, capital da Coréia do Sul.
Minorias étnicas e religiosas excluídas do boom econômico
Assim como a Rússia, que se pauta pelo mesmo princípio do interesse econômico (especialmente com relação a ex-repúblicas e satélites soviéticos), a China sempre impede sanções ou intervenções das Nações Unidas em episódios sombrios envolvendo seus parceiros. Usa a desculpa da "não-intervenção em assuntos internos de outros países". Justiça seja feita, na hora de defender seus interesses, a China não difere de nenhuma outra grande potência.
Aliás, aí está a razão de tantas interpretações sobre o fenômeno China que se vê hoje. Para o povo chinês, público de uma mídia manipulada e submerso em propaganda oficial desde pequeno, está tudo sempre bem – não há tabu, mas desinformação. Para o ativista político e para a maioria dos jornalistas ocidentais, o país é uma ditadura comunista que se sustenta somente pelo sucesso de sua economia. Para os executivos que vêem no país um mercado de 1,3 bilhão, o "Império do Meio" é um indiscutível "case" de sucesso. A moral da história depende de qual o seu interesse.
Gilberto Scofield Junior, 42 anos de idade e 22 de jornalismo, é correspondente do jornal "O Globo" na China desde 2004, além de colaborador da Globonews. Seu blog No Oriente (http://oglobo.globo.com/blogs/gilberto), foi censurado no auge dos conflitos do Tibete. Além disso, já foi agredido em plena calçada de Pequim por seguranças que queriam impedir uma entrevista.
"É extremamente difícil ser jornalista num estado-policial em que a mídia estatal é mais fonte de propaganda política do que de informação. É cansativo, perigoso e difícil ser jornalista estrangeiro num país que odeia jornalistas estrangeiros. E cujo governo não se sente na obrigação de dar satisfações dos seus atos nem ao seu próprio povo.
Isto posto, o trabalho jornalístico na China sofre todo o tipo de limitação: da censura de páginas na internet que possam irritar o governo às prisões domiciliares de ativistas de direitos humanos e críticos do governo aos quais os jornalistas não têm acesso.
Já tentei entrevistar dois dissidentes, sem sucesso. A polícia impediu minha entrada no condomínio onde moram e os celulares são grampeados. Há um constante monitoramento dos jornalistas. Já perdi as contas das vezes em que estava conversando com personagens nas ruas e um guarda veio me perguntar o que eu estava fazendo ou para dizer que ali, na rua, não era permitido fazer fotos.
Em Donglu, quando fui fazer a matéria sobre a única cidade chinesa onde teria havido aparições da Virgem Maria (aceitas pelo Vaticano), o pároco local me pediu que tomasse cuidado com a polícia à paisana e não entrevistasse qualquer pessoa ao ar livre. Era perigoso para eles. Tive que realizar as entrevistas dentro de bares e sair correndo com meu motorista e tradutor porque um carro da polícia estava chegando. Por sorte, não fomos detidos. A coisa é difícil, cansativa e por vezes perigosa."
Fonte: Revista Galileu
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